Doki Livros | A impossível faca da memória, Laurie Halse Anderson

by - segunda-feira, agosto 12, 2019

Alguns livros são extremamente difíceis de se escrever sobre - e por isso também são mais demorados de se resenhar. Para mim, A impossível faca da memória é um desses livros. Recebi o exemplar da editora Valentina na época de seu lançamento e fiz a primeira leitura da história nas semanas que se seguiram, mas não foi uma leitura que fluiu bem - os meses passados foram bem complicados na minha vida e isso interferiu no meu olhar durante as leituras. Decidi que leria de novo a história em algum momento do futuro e então a resenharia. Na última semana, voltei a abrir suas páginas e finalmente consegui encontrar a fluidez e sentimento que sabia que a história continha. Por isso estamos aqui agora.


Nesta história vemos Hayley, uma adolescente que está tentando se acostumar a frequentar uma escola normal depois de cinco anos viajando pelo país com o pai, tentando sobreviver às aulas e aos desafios que sua vida familiar lhe impõem. Além da personagem principal temos, como personagens extremamente significativos para a trama, seu pai Andy, sua melhor amiga Gracie e o nerd Finn. Nenhum desses três personagens têm o que chamaríamos de vidas comuns - o pai sofre de transtorno de estresse pós-traumático; a amiga tem problemas familiares; e o garoto guarda uma série de segredos.

O que mais tem me interessado nos livros jovem-adulto de ficção realista é a voz de seus narradores, por ser uma ficção realista (e eu nem sei se nós chamamos assim aqui, mas está valendo), problemas contemporâneos são examinados e questionados em suas linhas. Nossa narradora aqui é Hayley, uma adolescente cínica, mergulhada até os cabelos em uma situação dolorosa e que lida com o que é preciso a partir de uma significativa dose de autopreservação [que beira ao exagero (mas faz sentido)]. Ela tem zero esperanças em relação à humanidade e chama de zumbis os adolescentes que frequentam a escola com ela. Desde a primeira página sua voz mostra o tipo de pessoa que ela é: inteligente, sarcástica (ou ácida), desiludida e sem paciência para os dramas comuns da idade.

Hayley traça uma linha divisória entre ela e as outras pessoas. Seus pensamentos sempre acabam em reflexões sobre os dramas adolescentes e sua falta de sentido - ela se recusa a gastar energia com isso. Fiquei surpresa (e em alguma medida, encantada) com a construção da personagem, Laurie Halse Anderson não poupa nada na forma de mostrar a perspectiva de uma adolescente sem esperanças e com uma carga tão grande de medo [por seu pai e por si mesma] que não sobra espaço para mais nada.

Esse foi um dos problemas para mim durante a primeira leitura: por ter passado pela adolescência de forma tão distinta da vivida por Hayley e por estar envolvida com outro tipo de preocupação, não consegui me conectar direito com seu sofrimento. Quando reli (talvez por conhecer a história), os sentimentos foram diferentes e minha conexão com a personagem também. Se toda sua acidez me irritou um pouco na primeira leitura, na segunda consegui [finalmente] perceber que embaixo de toda sua fachada de durona havia medo e dor.

Um elemento essencial para o enredo são os flashbacks. É pelos flashbacks que o pai dela tem da guerra que vemos não só a experiência e trauma dele como soldado, mas também o sofrimento dela. Hayley cresceu sem sua mãe biológica, foi abandonada na infância e teve que ser a figura de adulta responsável quando o assunto era seu pai, então obviamente reprimiu todo seu trauma. Então durante todo o tempo ela precisa lidar com duas bombas prestes a explodir: suas feridas profundas e o humor de seu pai. E esse, para mim, é o ponto alto da trama, mas do que um romance que surge entre a protagonista e o garoto nerd, mais do que a amizade com traços complexos entre ela e Gracie, é a representação de uma adolescente bagunçada, mas extremamente forte, que torna este livro o que é: perturbadoramente comovente. Seu final é um pouco falho, mas história é sobre ela e é Hayley a que mais merece ter indícios de um futuro melhor e mais colorido.

Me parece que o tom desta resenha ficou um pouco estranho, então vou falar um pouco sobre o romance para terminar o texto mais leve. Hayley e Finn tiveram um relacionamento interessante, sua construção foi num ritmo delicado. As brincadeiras sarcásticas entre eles cumpriram bem seu papel de entreter e suas conversas mostraram quão bem foi o desenvolvimento dos dois no decorrer da narrativa.

No final, estou satisfeita. A história me fez pensar muito sobre questões familiares em um nível diferente do que me acostumei a olhar e a pensar a memória e seu [não-]lugar nas nossas vidas.

Até breve! 

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7 comentários

  1. Olá!

    Pelo que tenho lido, a narrativa da autora melhorou significamente depois de seu último livro.
    Tenho curiosidade em conhecer essa história, li o primeiro livro da autora, apesar de não ter sido uma história sensacional, eu gostei.
    Quero conhecer e ter sentimentos a respeito da vida da personagem, que por sinal, não parece ser nada fácil.

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  2. Oi, Vitória!
    Eu tenho muito interesse em ler nos livros da Laurie Halse Anderson, tanto que, ainda esse ano, irei ler Fale!
    Desde que a editora lançou esse livro, eu estou muito curiosa, mas quero primeiro ler Fale!, para ver se gosto da escrita dela para depois ir para esse.
    Bjss

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com/2019/07/resenha-juncos-ou-junko-mulheresemfoco.html

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  3. Oi, Vitória.
    É impressionante como nosso momento de vida influencia na leitura, não é mesmo?! Às vezes o problema nem é o livro, mas o nosso estado de espírito quando o pegamos para ler. Hoje em dia eu já até evito certos livros quando percebo que não estou bem para os temas abordados.
    Achei bacana você ter dado uma segunda chance para essa história. Apesar de você ter tido uma outra impressão sobre ele e até ter curtido no final das contas, eu vou acabar deixando essa dica passar. Como a minha adolescência foi muito diferente dessa dos dias de hoje e por eu ter uma visão de mundo muito distinta, os livros de ficção realista com personagens adolescentes mais me aborrecem do que me divertem!
    Hoje em dia, se for para pegar um YA, opto por fantasia, ficção científica, mitologia ou algo assim!
    Beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

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  4. Não conhecia a escritora, mas confesso que fiquei bem interessado em conhecer sua escrita e essa obra não estará descartada da minha lista. Anotei para uma leitura futura. Excelente dica!!!

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  5. Olá, tudo bom?
    Já tinha visto muito essa capa por aí,mas não sabia ao certo sobre o que o mesmo falava. Essa sua experiência de leitura foi super interessante né? Nos mostra que os livros tem sim um momento certo para serem lidos e compreendidos e isso é muito bacana. Fiquei bem curiosa para conferir como as questões familiares foram abordadas na trama, assim como o romance. Dica anotada! ♥
    Beijos!

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  6. Essa capa sempre me deixa muito curiosa sobre essa história, principalmente porque nas resenhas que costumo ler, dá pra perceber como essa obra causa um misto de sentimentos nas pessoas. Já adicionei na minha listinha de desejados.

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  7. Olá!
    Não conhecia esse livro. Te entendo quando não nos sentimos bem lendo uma história no momento. Tudo tem seu tempo rs. Gostei de conhecer, parece uma história instigante sobre a fase da adolescência, que é um misto de sentimentos né. Espero poder conferir em breve.

    Beijos

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