Meio blogueira e meio acadêmica: a autoria astronauta

by - terça-feira, junho 25, 2019


Eu acho [na verdade, espero] que você ainda se lembre do que falei no post passado, então cá estamos nós. Depois de fazer aquela pesquisa sobre a carreira da curadora do Clube, Carina Rissi, chegamos no momento que tanto esperei: falar sobre a autoria astronauta, que em algum momento do passado comentei achar que poderíamos caracterizar a autoria da Carina assim. Depois de refletir a partir do que vimos na breve biografia que escrevi, me convenci de que sim, podemos considerar a autoria da Carina como uma autoria astronauta – e vou tentar te convencer disso. Para nortear a reflexão deste texto, peguei um trecho do artigo da professora Luciana Salgado (já falei dele brevemente em algum post anterior):

"Também aí as autorias se estabelecem na gestão de dimensões assumidas conforme se articulam as instâncias que produzem uma unidade autoral. Por isso, em vez de pensar em autores da internet, como se sugere em muitos trabalhos atuais, por oposição a autores fora da internet, talvez fosse o caso de pensar o tema a partir da investigação dos modos como os objetos técnicos, porque são subjetivantes, configuram comunidades discursivas que os cultivam e obtêm daí sua identidade. Talvez pudéssemos registrar, sobre essas bases, efeitos da gestão autoral. Um ensaio: autores internautas como um efeito de autoria livre de mediações e de fronteiras; autores astronautas como um efeito de autoria altamente especializada, mas submetida a um sistema ao qual deve responder com destreza e eficácia; autores argonautas como efeito de autoria heroica, conjurada pela Boa Sorte em uma trajetória x ou y sempre associada à circulação dos textos. Metáforas que merecem reflexão mais detida em abordagem futura." (2016, p. 212-213)

A  partir deste trecho, vou tentar te explicar por que acho que podemos caracterizar a autoria da Carina Rissi como uma autoria astronauta e que seu clube do livro, além de lhe agregar valor simbólico como autora, participa, junto com outros tantos clubes de leitura, de uma verticalidade no mercado editorial brasileiro. Pois bem, vamos lá.

De acordo com o que foi proposto, uma autora astronauta é alguém cuja autoria, bastante especializada, precisa se submeter a um certo sistema, de forma eficaz. Transpondo esta caracterização para o que temos aqui, vou explicar assim: a Carina Rissi é uma autora altamente especializada, dentro de um filão (ou nicho ou sub-gênero) de livros de romance e que, por ser uma autora contratada de uma grande casa editorial (o selo Verus do Grupo Editorial Record), deve acompanhar os movimentos do sistema do mercado editorial, tanto atendendo aos pedidos dos fãs (seu público consumidor), no que tange a escrever [e publicar] novas histórias, quanto aos tempos programados pela editora para que suas novas histórias sejam lançadas.

Para pensar num exemplo, vejamos “Amor sob encomenda”, o próximo livro (anunciado) da autora. Ainda sem capa e passando pelas últimas etapas de revisão (pelo menos, é isso o que vi no Instagram da autora recentemente), o livro será lançado perto da Bienal do Livro do Rio de Janeiro (que neste ano acontece entre 30 de agosto e 8 de setembro) para que a editora possa fazer, além dos já comuns eventos nas principais capitais e grandes cidades do país, eventos de lançamento durante a feira e ter um número de vendas expressivo com os fãs "antigos" e os novos interessados que visitarão o estande da editora no Riocentro durante os dias em que a feira acontecer. O mesmo vale para o último volume da série Perdida, que, segundo notícias encontradas pela blogosfera literária, será lançado no próximo ano, quando também será comemorado o aniversário de dez anos do lançamento do primeiro volume – que leva o nome da série.

Percebemos, então, que a Carina é uma autora que precisa se submeter a um sistema altamente complexo: seus lançamentos são programados de acordo com certos eventos (mas não só por eles). De forma eficaz e através de posts e dicas sobre o que anda escrevendo em suas redes sociais, ela mantém suas fãs interessadas e ansiosas por novidades durante todo o período de "espera" entre um lançamento e outro. "A autoria é um complexo entrelaçamento" (Salgado, 2016) que deve ser gerido e evoca e é evocada nas obras que produz sentidos de acordo com os lugares por onde passa e que convoca traços da pessoa (o/a autor/a) e do mundo em que está. São os ingredientes do processo editorial (que envolve também a programação dos lançamentos) pelo qual as obras da Carina passam que ajudam (ou que fazem com que) sua obra, como objeto, possua valor autoral – afinal, "a mediação editorial não pode abrir mão de garantir um bom produto final, que é sua razão de ser" (idem).

Por saber e conseguir lidar com as coerções do sistema, e por não possuir uma autoria livre de mediações e fronteiras (já que a editora é uma mediação e uma fronteira) e por sua trajetória não estar unicamente associada à circulação de seus textos, considero que a autoria da Carina possui um efeito de autoria astronauta. e eu espero ter te convencido, porque este post vai parar por aqui, mas se você quiser, comente aqui se a minha linha de raciocínio fez sentido


Até breve! 

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