sexta-feira, setembro 07, 2018

Doki Livros | Opisanie Swiata, Veronica Stigger


Li Opisanie Swiata pela primeira vez há alguns anos para uma disciplina de literatura brasileira contemporânea -- que mais tarde me levou a escrever sobre um outro livro que nunca teria lido se não fosse pela ocasião. Com nome difícil de pronunciar e uma história fragmentada que faz uso de colagens e recortes, a história que Veronica Stigger nos conta carrega uma série de referências e intertextualidades que leva algum tempo para perceber. E é isso o que mais me chamou atenção.

A última vez que li esta "descrição do mundo" (tradução do polonês "opsanie swiata") foi no começo deste ano para uma outra disciplina de literatura brasileira e recentemente tive a oportunidade de assistir uma palestra da Veronica (que não tem acento no nome) sobre como foi a escrita e criação do livro -- o que me levou a escrever esta resenha curta -- e cada nova vez que volto a encontrar seus personagens descubro detalhes novos.

Estamos nas portas da Segunda Guerra Mundial, num mundo completamente diferente do que conhecemos agora -- já aviso aqui, está é uma história que olha para o passado. Temos aqui a história de Opalka, um senhor polonês que descobre ter um filho perdido, doente e em seus últimos dias, na Amazônia brasileira. Ele irá atravessar o oceano para conhecer este filho -- e é esta viagem que acompanharemos, com todas as surpresas, metáforas e cenas inesperadas e referenciais. E agora cabe a primeira (e única) observação sobre as referências principais da história: o personagem principal, Opalka, possui o nome de Roman Opałka, um pintor polonês cujas obras são geralmente relacionadas à arte conceitual (e vale muito a pena pesquisar seu nome e obras no Google); o título do livro é também o nome de uma das obras do pintor (outra pesquisa que vale a pena) e o título do livro de viagens de Marco Polo; o filho do personagem está na Amazônia porque a autora analisou uma série de esculturas de Maria Martins (mais uma pesquisa interessante para se fazer) sobre a Amazônia; e o amigo do personagem, Bopp, possui esse nome por causa de Raul Bopp, um poeta brasileiro (que também vale a pesquisa).

Opalka é um homem muito introspectivo, completamente diferente de seu inesperado companheiro de viagem, um homem singular chamado Bopp. Os dois viajam juntos de trem e o segundo resolve acompanhar o primeiro na volta à Amazônia porque não se conhece o filho pela primeira vez todo dia. Dessa forma, acompanhamos uma espécie de relato da viagem, ora focado em Opalka, ora em Bopp -- a narrativa em forma de relato traz consigo folhetos, propagandas, frases soltas de um guia de viagens ao Brasil... tudo numa espécie de coleção do viajante, e dessa forma vemos entrelaçados vários tipos de texto que juntos formam uma visão do que seria a viagem do navio em que os personagens estão. Se entrelaçam também cenas de viagem, canto, dança e diversas emoções suscitadas pelos momentos em que estamos acompanhando.

Este é um livro composto por várias camadas, então quando temos o diário da viagem de Opalka em primeira pessoa, trechos de narração em terceira pessoa, os anúncios e propagandas espalhados pelo livro (que torna real a atmosfera de viagem daquele tempo), as declarações sobre Bopp (o real) para o Bopp personagem (e isso só consegui perceber muito depois) e várias citações de outros autores sem marcação no texto, podemos observar essas camadas ganharem vida diante dos nossos olhos.

Além dos dois personagens que dominam a cena, Opalka e Bopp, os demais personagens são todos bastante característicos -- cada qual a sua maneira. Todos eles rendem cenas muito boas de se analisar. São personagens que estão num navio, como se estivessem em um mundo paralelo, desenraizados e migrantes, procurando (falhando ou não) seu lugar no mundo -- o que seria a condição do homem moderno talvez.

É interessante o quanto acabamos nos envolvendo na narrativa, uma vez que compartilhamos com os personagens a ansiedade de conhecer o filhe de Opalca, Nathaniel. É em torno dessa expectativa em observar o encontro entre pai e filho que a narrativa vai se movendo, no ritmo do navio, com uma concentração de emoções que não esperamos encontrar.

A autora segue um ritmo constante na narrativa, as surpresas ficam por conta das cenas que se desenrolam no decorrer da viagem. As páginas são coloridas de acordo com a camada do livro, as imagens no início e no fim lembram as aberturas e encerramentos de filmes antigos. Tudo é detalhadamente bem conduzido e encaixado. Uma leitura muito enriquecedora e (por que não?) diferente para todos.
A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que não esqueceu. [...] Ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu (p. 145).
Uma última informação: Opisanie foi publicado primeiramente pela Cosac Naify (que é a edição que tenho), mas depois de seu fechamento se tornou um livro com valor elevado. Recentemente o SESI-SP fez uma nova edição -- mantendo sua capa e esquema de cores -- com valor acessível (o link ao final do post é da edição do SESI-SP).

Dados do livro:
Opisanie Swiata, Veronica Stigger, 160 páginas, SESI-SP Primeiro romance de Veronica Stigger, Opisanie swiata significa “descrição do mundo” e é como se traduz il Milione, o livro de viagens de Marco Polo, para o polonês. É justamente como uma espécie de relato de viagens que essa novela se constitui. A história central do livro é a de Opalka, um polonês de cerca de sessenta anos que, em sua terra natal, recebe uma carta por meio da qual descobre que tem um filho no Brasil – mais especificamente, na Amazônia -, internado num hospital em estado grave. O pai decide viajar ao encontro do filho; no início do percurso, conhece Bopp, um turista brasileiro que, ao tomar conhecimento das razões da viagem de Opalka, resolve abandonar seu giro pela Europa para acompanhá-lo ao Brasil. O livro se compõe a partir de diversos registros, como o do relato em terceira pessoa, o da carta, o do diário etc., além de contar com inserções de imagens e fragmentos de textos sobre a ou da década de 1930 — época em que transcorre a ação.

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Até breve! 
sexta-feira, setembro 07, 2018 / by / 5 Comments

5 comentários:

  1. Oi Vitória!
    Eu não conhecia essa obra, mas fiquei bem encantada com sua resenha. Fiquei bem curiosa pra saber o desenrolar, como se deu o encontro entre o pai e o filho, como foi a viagem. Adorei a autora ter colocado as referências, devo admitir que não conhecia, mas já vou procurar! Enfim, essa obra realmente parece enriquecedora e encantadora. Vou procurar por essa edição mais acessível! :)
    Beijos

    www.lendoeapreciando.com

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    1. Oi, Kamilla! Que bom que a resenha despertou o seu interesse pelo livro! Super indico a leitura de todos os textos da Veronica :)

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  2. Oie amore,
    Não conhecia o livro mais fiquei bem curiosa pra ser sincera.
    Gosto dessa coisa que mencionou de recortes e colagens, ainda mais das intertextualidades.
    Adorei sua resenha e fiquei mega curiosa pra conhecer essa história que me parece bem intensa e encantadora ao mesmo tempo.

    Beijokas!
    www.facesdeumacapa.com.br

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  3. Normalmente este livro não me chamaria a atenção talvez por não ser o meu estilo, mas sua resenha me deixou interessada, talvez por toda uma riqueza de detalhes e referencias, fiquei curiosa. Vou colocar na lista de futuras leituras pra um dia que eu tiver a fim de ler algo diferente do que costumo.
    Muito bom o texto :D

    Mirian
    castelodoimaginario.blogspot.com

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  4. Oi.

    Ainda não conhecia esse livro, mas me pareceu bem interessante. De fato o nome é bem complicado, e agora que li sua resenha, a história me pareceu ser ótima. Ainda que de primeira o livro não tenha me chamado a atenção de, eu fiquei curiosa para conhecer mais sobre ele. Fica anotada.

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