Doki Livros | O Fundo é Apenas o Começo, Neal Shusterman

Estou tão impactada com este livro que ainda não sei o que escrever nessa resenha.


Eu. Realmente. Não. Sei. O. Que. Escrever.

Mas vamos lá. Esta é uma história intensa e que demanda um certo tempo e dedicação para a leitura. O trabalho de construção de sua narrativa é realmente muito bom e sua história suscita discussões, reflexões e tomadas de consciência.

Sendo bem sincera, eu acho que em todos esses anos como blogueira nunca li uma história tão bem escrita e com uma representação positiva dos distúrbios mentais feita de forma tão real e plausível -- e isso me deixou surpresa e admirada. Sempre digo que é extremamente necessário falarmos dos temas que todos têm medo de tocar, e este livro é uma tentativa (posso chamar de tentativa?) muito boa de mostrar um pouco da luta que as pessoas com distúrbios mentais enfrentam.

Para mim este livro foi quase mágico -- com a dose certa de componentes inteligentes, engraçados, assustadores e instigantes, tudo junto. A atmosfera e o humor dos capítulos mudam de um capítulo para o outro e essa foi uma estratégia não só para manipular nossas mudanças de humor durante a leitura, mas também para nos fazer entrar no funcionamento de uma mente dispersa -- é um passeio ao mesmo tempo turbulento e intensamente interessante. Mas você deve estar preparado para ler essa história de Neal Shusterman: se você não tiver uma ideia sobre o que se trata, poderá ser enganado durante a trama pois existem aqueles capítulos fáceis, realistas, mas existem também aqueles que são completamente fora da realidade. E esses capítulos irreais (?) também são profundamente alegóricos e entender o que eles representam de verdade pode ser um caminho a percorrer. A leitura de O fundo é apenas o começo pode ser um desafio, mas é daquele tipo de desafio que vale a pena se engajar.

Podemos analisar a história em fases, as memórias da vida familiar razoavelmente saudável de Caden; sua rápida deterioração mental; e sua vida no navio -- que é um sinal de que sua sanidade foi perdida e também uma metáfora bastante inteligente. Acompanhar o declínio é realmente um pouco angustiante, a desolação transborda das linhas, mas a cadência da narrativa não se perde. Para quem está acostumado com romances dentro dos formatos quadradinhos, essa narrativa pode parecer bastante arrojada ao mostrar a perspectiva de Caden em sua cidade natal e depois no navio, mas esses lugares de onde parte a visão da narrativa são cruciais para o leitor perceber não só as sutilezas do distúrbio mental, mas também para tornar o livro intenso -- e obviamente há uma razão por trás disso.

Não conhecia nada de Neal Shusterman, então fiz uma pesquisa quase-rápida nos goodreads da vida e percebi que uma de suas características como autor é escrever narrativas que quebrem os limites e façam dos livros jovem-adulto alguma coisa inesperada. E dessa vez, com a ajuda dos desenhos de seu filho Brendan (que passou por uma experiência semelhante a do personagem), conseguiu escrever uma narrativa com peso o suficiente para nos agarrar pelo coração e nos fazer perceber o quanto é doloroso e ao mesmo tempo esperançoso viver com distúrbio mental. 

Através de Caden, um personagem tão bem construído, o autor consegue mostrar as ilusões, as dúvidas e os episódios de "desarranjo" emocional que vêm com o transtorno esquizofrênico -- e ele faz isso de uma forma que supera a trama, honrando a dor que perpassa a luta de Caden. Eu nunca mais serei a mesma e devo isso a Neal.

Esta é uma leitura emocionante sobre um garoto rasgado em duas realidades. Me parece um título indispensável para os amantes de uma boa trama profunda.

Até breve! 

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