quinta-feira, maio 31, 2018

eles diziam

Foto: france perles | Unsplash
Eles diziam que a garota da primeira casa estava escondida na floresta. Eles diziam que seu irmão era louco e que ficava preso na casa como um porco. Eles diziam que na escuridão da noite se conseguia ouvir os gritos dos pais mortos.
Eles diziam muitas coisas, nenhuma delas era verdade. A verdade era que ela e os irmãos estavam condenados à eternidade. E depois de muitos anos, a eternidade é tempo demais perto de uma geração que não sabia do que falava. Eliza, porém, não se importava com o tempo. Ela queria vingança, sentir o gosto do medo das pessoas, ouvir os gritos.
Na noite escura, entre os troncos das árvores, a garota pressentiu seu futuro. A imortalidade acaba ao pecar. Haveriam dois pecadores nessa madrugada.
Eliza se aproximou com calma, sem fazer barulho, o vento e os grilos encobrindo sua respiração. Ele não sentiu. Nem ouviu. A névoa o cegou.
O homem, um antigo conhecido, gostava da adrenalina da morte, gostava de ver a luz no olhos das garotas desaparecer, sentia necessidade de extrair o que elas tinham de melhor. Gostava de fazer a vida escorrer entre os dedos. Gostava de assistir, não de atuar.
Eliza sabia.
E quando ele começou a correr sem rumo, cada vez mais rápido, entre a floresta negra, a névoa terminou de o cegar, o vento o ensurdeceu e os galhos das árvores, suas mãos, fartos de assistir a dor das inocentes todas as vezes que o homem aparecia, o agarraram sem piedade, apertando seus pulmões, o sufocando. Ao olhar para frente e avistar a garota de branco, perdeu uma batida do já falho coração. Ela sabia o que estava fazendo.
Ele sentiu as mãos em seu ombro, sentiu o frio da navalha na garganta, os sons dos pequenos passos pelo chão, as vozes das vítimas, o calor do sangue escorrendo. A escuridão tomando conta.
Eles diziam que a garota da primeira casa estava escondida na floresta. Eles diziam muita coisa, mas ela já não podia ouvir, o peso do pecado a libertara da eternidade. O peso do pecado a condenou ao nada. O peso do pecado a deixou provar o gosto da vingança.
Eles diziam que na escuridão da noite se conseguia ouvir os gritos. Os gritos dos irmãos que ainda estavam condenados.

~este é um conto que escrevi em 2013 para um projeto com alguns amigos. Eu não mexi em uma linha dele para postar porque sou uma pessoa muito diferente daquela que escreveu a história de Eliza -- meu estilo de escrita mudou, meus pensamentos sobre estilo também. Mas este foi o texto que mais gostei dos que escrevi para aquele projeto literário. O projeto adormeceu, mas achei que meus experimentos textuais não precisavam ficar adormecidos com ele, então resolvi postar por aqui. Ainda tenho um ou outro texto daquele projeto e quando [e se] eu achar que está na hora deles voltarem a acordar, provavelmente postarei por aqui também.

Até breve! 
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