Burn Your Tongue (Parte XV)

sábado, abril 14, 2012



Lizzy e seu irmão conversaram por mais um tempo, mas achei melhor me afastar e dar-lhes um pouco de privacidade. Mesmo que eles não imaginassem que estava ali, eu sabia qual era a sensação de sentir falta de alguém que amava, mas no meu caso não havia nem a mais remoa chance de conseguir falar com ela, afinal, mortos não voltam para conversar com seus entes queridos. Nem mesmo as irmãs mais novas. Me afastei a passos longos, e me deixei encostar em um carro por um momento. Minha cabeça fervilhava com as informações que o irmão de Elizabeth havia me passado sem saber. Ele estava infiltrado em uma organização, assim como eu estava no clã, mas por razões diferentes. As minhas não eram nobres como as dele, eu não queria salvar os negócios do meu clã, nem assegurar que meus descendentes tenham um futuro confortável. Eu queria vingança, eu queria que Elizabeth sentisse a dor que senti quando ela me disse que não gostava mais de mim, que sentisse seu orgulho tão destruído quanto o meu. O problema era que às vezes sentia que não era o certo a se fazer.
Mas o que me preocupava no momento era a dúvida de não saber qual organização era o alvo do rebento dos Karlin. A possibilidade de ser a minha agência era mínima, mas não impossível, tentei vasculhar na memória alguma coisa que pudesse estar ligada aos negócios da família de Elizabeth, mas nada apareceu. Precisaria checar alguns arquivos mais tarde.
Olhei uma última vez para o beco a tempo de ver Lizzy saindo e andando na minha direção, quase em desespero, consegui destravar a porta do automóvel que estava com as janelas abertas e entrei correndo, fechando os vidros para que ela não me visse, se ainda não o tivesse feito. Quando ela passou pelo carro sem nem me dirigir um olhar, respirei aliviado. Andava em passos rápidos e curtos, passando uma das mãos nos olhos algumas vezes, como se estivesse secando lágrimas ou as impedindo de cair de seu rosto. Senti um aperto no peito, mas me concentrei em ignorá-lo, não poderia me manter firme ao meu objetivo sendo sentimental. Sai como se nada tivesse acontecido e voltei a segui-la de longe.
Voltamos à escola, ainda estava no horário de aula, esperei para entender o que Lizzy estava pensando ao voltar para lá se não poderia entrar em nenhuma aula. Por fim, ela apenas sentou em um dos bancos que haviam no pátio e ficou olhando para frente sem enxergar de verdade, com olhar perdido e desfocado. Parecia sentir saudade. Não esperei para vê-la ir embora, me afastei rapidamente e peguei um ônibus para casa, nem me lembrava mais da última vez que peguei um ônibus, incrível com essas coisas somem da rotina quando se tem um carro.
Subi correndo para o meu quarto, as caixas empilhadas no canto e olhavam censurando minha demora em fazer meu trabalho, as desempilhei e alinhei lado a lado na minha frente ao longo da cama, as abri e verifiquei o conteúdo. Pequenos maços de papel, grandes envelopes pretos, pastas com etiquetas destacando seu conteúdo, meu pagamento estava preso por um alfinete em um bilhete com letras garrafais. “RR”. Resultado Rápido. Rápido? Bem, então era melhor eu me apressar pois no quesito rapidez, já estava muito atrasado para terminar isso. Uma das vantagens de se trabalhar com freelancer é o pagamento, sempre mais caro e sempre a vista. Abri as pastas, olhei as fotos, gravei o rosto, as informações mais importantes e os diversos números que teria que utilizar, encontrei uma chave que iria usar dentro de outro envelope escuro no fundo da última caixa. A indicação do local onde o carro estaria me esperando estava gravada nas costas da chave. Sempre bem feito, sempre o mais sucinto possível. Às vezes era interessante seguir as regras da agência.
Joguei todos os papeis de volta nas caixas, liguei a lareira e os queimei. Como disse, regras. Sem vestígios. Escrevi em pequeno e mal feito bilhete para Alazar saber o que eu estava fazendo e o grudei na geladeira com um dos imas estranhos que ele colecionava. Não o via há alguns dias, provavelmente sua parte do trabalho era mais específica do que a minha. Não que esteja reclamando.
Caminhei a passos rápidos até o ponto marcado na chave, um sedan preto me esperava. As instruções do próximo lugar estavam apoiadas no volante em mais um envelope. Se eu tivesse alguém para enviar cartas, nunca teria que me preocupar com envelopes já que recebo vários em todos os trabalhos. Uma pena não ter, meu pai gostava de escrever cartas para minha mãe e ela sempre ficava derretida quando recebia uma nova. Esse era o esporte deles, escrever cartas. Eu também recebia algumas deles, mas não gostava muito, achava que era uma tradição boba. Hoje sinto falta. Sacudi a cabeça para espantar as lembranças e liguei o carro. E isso me trouxe outras lembranças, dessa vez de Elizabeth brigando comigo todos os dias de manhã, sua cara de sono e seu péssimo humor pelos meus atrasos diários de poucos minutos, suas reclamações interrompidas pelos bocejos e olhos lacrimejantes. Me atrasava todos os dias de propósito, apenas para vê-la assim, com seu jeito de menina mimada mandona no nível mais alto. Com um sorriso não programando grudado em meus lábios, comecei a prestar atenção na estrada que deveria pegar. Iria ensinar alguém como se deve guardar os segredos da organização, e se ele não entendesse, então o faria entender na minha língua.
Doze quilômetros e algumas horas mais tarde, o sol estava imponente no céu claro e sem nuvens da cidade enquanto estacionava em frente ao prédio no qual meu alvo trabalhava. Esperei mais algum tempo até ele sair e me preparei mentalmente para o trabalho. Hora de deixar Elizabeth Karlin guardada na memória e prestar atenção no presente.

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